6 de maio de 2010

Dia: das Mães (crônica)

Segunda-feira: “Manhê, posso ir pro pai?” “Sabe que precisa fazer os temas e arrumar o quarto! Vai, vai!”
Terça-feira: “Manhê, posso ir pro pai?” “Sabe que precisa cuidar do cachorro e do filhote, além dos temas!”
Quarta-feira: “Manhê, posso ir pro pai?” “Sabe que tem os temas pra fazer e que às 17 horas tem cabeleireiro.”
Quinta-feira: “Manhê, posso ir pro pai?” “Tem o quarto pra fazer, to dizendo há dias; e os temas. Amanhã tem prova de inglês.” “O pai sabe inglês, tu não, mãe”.
Sexta-feira: “Manhê, posso ir pro pai?” “Hoje não, teu quarto ainda não está arrumado! Faz dias que estou dizendo!” “Mas eu vou, volto, tá? Te amo!”
Sábado: “Manhê, posso ir pro pai?” “Tá, mas te lembra que tem que tomar banho antes do aniversário da Júlia”.
Domingo: “Manhê, posso ir pro pai?” “Sabe que ainda não arrumou seu quarto, não?” “Sei, mas um pouquinho! Prometo.”
Depois de domingo segue a segunda-feira

      Não generalizemos, diz-se hoje. Cada caso é um caso. Cada pessoa é uma
     Nesses modernos dias comemorativos a abundar ano a ano, essas supostas verdades sucumbem à tradição, amoderna por definição.
     Todas numa aura. Até os homens sucumbem, cegam nessa. Ou calam mediante o maremoto publicitário e coronário.

2 de maio de 2010

E o controle de qualidade? (comentário)

"O grupo militante Taleban do Paquistão assumiu na tarde deste domingo (2) a autoria do atentado fracassado ontem à noite na Times Square, um dos locais mais movimentados de Nova York (EUA), frequentado por muitos turistas." (Folha Online de hoje)

Ora, se confirmada a veracidade, os Talebã estão falhando na pontaria. É o que desejamos.  

Ora, ora! (crônica)

A BP já assumiu toda a responsabilidade pelo desastre (cujas causas ainda conheceremos). Francamante: tenho pena deles. Eles? Quem são? Não sei, pois preferem ser anônimos, são uma SA, uma sociedade anônima. Um deles pode ser meu vizinho. Devem ser milhares, entre anões e gigantes.
     São milhões, por sua vez, que de seu empenho usufruem. Por isso os milhares investem na expectativa de um ganho. Quando ganham, sabem por que ganharam. E os milhões também ganham, mas dificilmente o percebem.
     Em 1973, depois em 1978 (eu estava na Alemanha), assustaram-nos com a crise do petróleo.
     Não foi crise de petróleo, foi crise do monopólio do petróleo, que jamais se repetiu. Seu novo preço possibilitou novas explorações, inclusive as do Brasil e do Golfo do México, cuja plataforma Deepwater Horizon, da British Petroleum (BP), acaba de explodir matando 11 trabalhadores.
     Cidadania compreende o par direitos e deveres. O direito de usufruir e o direito de empreender. Para regulamentar as coisas existem leis fiscais inúmeras. Quem fiscaliza é o Estado. Fiscaliza em nosso nome, os cidadãos e consumidores, as úrnulas, minúsculo de “urna”, cujo extremo incorpora o votante individual, assim aqui o defino!
     Desde a crise nós, os cidadãos do mundo, tivemos 40 longos anos para percorrer novos rumos e substituir o petróleo afinal apenas descoberto como concentrado energético e matéria-prima da indústria química. Não o fizemos. Muito pelo contrário, incentivamos até hoje e mesmo até amanhã os poços exploratórios. Vide a discussão sobre os royalties cariocas ou paulistas.
    Os resultados compreendem os resultados, ora, ora!

Qual foi mesmo o sentido do 1º de Maio?


Não temos isso no Brasil. Não nessa ocasião: Religiosamente, em Berlim e Hamburgo, acontece um feio confronto de 1º de Maio, lembrando os confrontos em que a vítima é uma boa centena de automóveis incinerados por jovens de Paris.
      “Os jovens” jogam garrafas, cheias e vazias, e pedras em policiais e transeuntes. Incineram contêineres de lixo. Os policiais vão à caça. Nem sempre encontram os verdadeiros. Depois perdem processos judiciais.
     Um ano atrás, 500 policiais foram feridos.
     Dificilmente ainda se conteúdos da esquerda, a não ser os chavões.
     Em Hamburgo a Caixa Econômica é “desvidraçada”, no jargão dos jovens. Também o Banco Alemão, na diametral, é vandalizado por jovens homens irados argumentando: “Ei, velho, afim de baderna.”
     De que adianta? No Banco Alemão diz: “Este terminal logo estará disponível para você.” O capital parece ter vencido.
     As agressões, contudo, foram descarregadas.

É dose! (comentário)

Comenta a "Folha Online" de hoje que  "dois postos de saúde do Rio Grande do Sul --um em Porto Alegre e outro em Santa Maria-- terão de reaplicar as vacinas contra a gripe A".
      "Em Santa Maria o erro aconteceu na preparação do medicamento. A equipe responsável pela manipulação da vacina não misturou os dois componentes (antígeno e adjuvante) antes da aplicação." 
      O setor de imunizações da Secretaria de Saúde diz em nota que o erro foi "pontual" e que "não confere riscos à saúde da população". Em Porto Alegre a Secretaria de Saúde não informou o que aconteceu.

     Erro tão elementar só pode se dever à falta de qualificação ou de gerenciamento, também elementar. Não consigo imaginar um erro desses num país como a Alemanha, por exemplo.

1 de maio de 2010

Quanto tempo um cavalo resiste sem comer? (animais)

10 dias.  Depois cai, se debate e, mesmo medicado, 3 dias mais está morto.
    Foi o experimento que a dona do cavalo fez.
    “Podem me prender”, diz, provavelmente sabendo que não será presa.
    O fato mereceu registro por respeito à vítima.



A ocorrência de abril de 2010 está documentada na Associação dos Amigos de Animais de Ijuí.

1º de Maio, Dia das Mães

É fato. Nesta última semana de abril de 2010 uma colega me chama a atenção de que sábado é o feriado de 1º de Maio ao recomendar-me que não o esqueça.  
    Bom serviço prestado a mim, que, sem brincadeira, sou capaz de ir trabalhar quando ninguém me avisa que o outro dia é feriado.
     Muito bem, é bom registrar o feriado.  De resto, contudo, o impacto é zero.  Pois cai num sábado, e porque filha e publicidade já me chamaram toda atenção para o dia das mães. A filha para comprar - e a publicidade para vender.
     Os eventuais manifestantes trabalhistas no Brasil serão milhares.  Desfilarão de duas a três horas neste sábado, sob holofotes e câmeras mas pouca publicidade. Já os pedestres filhos e filhas de mães serão milhões a rumar aos shoppings, uma plenitude. Inclusos os milhares do Dia do Trabalho.
     Os milhões representam os social-democratas. São democratas e vivem numa democracia de viés social, não obstante seu recado às urnas.
     Tanto conquistaram (ou receberam de direitos importados) que o 1º de Maio mera folga representa para pensar no presente da mãe.

25 de abril de 2010

preciosa cadeira (nota)

Cadeira de rodas usada pela APV de Ijuí, de autoria do veterinário Chico.
O Chico iria rir se lhe disserem que essa cadeira, de certa forma, lhe custou redondos 80 mil reais.
À APV desejo sucesso em nome dos animais, pois não é facil trabalhar direito levantando de pé esquerdo.

Milho verde

Há mais de um ano amontoa-se um monte de terra roxa no que seria minha calçada. Restos de reformas. Há muito a terra roxa está encoberta sob vigoroso verde, como aliás toda minha calçada intransitável.
     Um vizinho pediu uma parte do monte e lhe concedi o favor. Baixaria o monte e talvez a crítica vizinha a meu pequeno jardim botânico de calçada. Para não causar a censura do leitor noto que, por motivos da localização, ninguém percorreria esta calçada ainda que estivesse limpa e bem-cuidada.
     Pois bem. Talvez como retribuição, certo dia o vizinho, chegando a casa e carregando um saco cheio, pergunta-me se eu "quero" milho verde. Não pensara em milho verde, mas sabia que não estava a fim. Agradeci recusando. 
    Mas o vizinho insistia e, para resolver a situação, logo cedi. Preencherndo o  tempo, perguntei: “Daonde é o milho?”
    “Ah, tava viajando - é da beira da estrada”, disse com sorriso maior que o costumeiro. Neste meio-tempo um espigame já estava em meus braços. Num ressalto contido calei. Que fazer? Nada! Agradeci e fui-me.
     Mas fui-me pensando. Imediatamente vieram-me à cabeça dois lamentos recentes sobre tempos atuais: “Não dá para plantar! O pessoal leva. De dia e de noite.” Isso me contou uma conhecida sobre sua mãe, que em Santa Catarina tem 5 hectares rodeados de muito povo. Seu éden lhe escorria pelas mãos. Não sei o que faz hoje.
     E contou-me um agricultor ijuiense à beira da periferia urbana, por dois lados cercado de uma vila. Parou de plantar mandioca e milho porque plantava para o povo. Galinha desaparece principalmente de noite. Os terrenos vizinhos em geral permitiriam criar galinha e plantar milho e mandioca para o consumo familiar. 
     Na melhor das hipóteses, crêem que em plantando dá é uma anedota.
     O agricultor agora só planta pasto, tem uma vaquinha e vende leite e ovos. O pasto alimenta os cavalos de sua cabanha. Até que os vizinhos decidam comer pasto.
     São pequenos crimes que um juiz decerto não gostaria de ter sobre sua mesa. Condenaria ao serviço social? 
     De tão pequenos e numerosos, os crimes impedem gente de plantar alimentos para seu povo. Por isso mesmo são crimes.
     Em confins brasileiros, aliás, também já não é crime derrubar mata nativa  (um bem antes público que privado) e substituí-la por eucalipto. Veredito de juiz. Acatou o raciocínio (?) do demandante: as árvores nativas estavam aí somente porque ninguém capinou o terreno. Ou seja: o terreno não foi "cuidado".
     Se isso pega na Amazônia, o pessoal pega os juízes.
     Não é possível que um mundo melhor não seja possível.

Igreja Católica?

Filho de pastor protestante, só conheço essa instituição de longe e de fora, e como protagonista da História humana com destaque nas fogueiras de São João à moda medieval. Recentemente ainda por intermédio de seu exorcista-chefe em Roma.
     Mas isso é um olhar superficial. Quem me abriu uma fresta nesta pomposa fachada romana foi José Hildebrando Dacanal, catuipenho da roça e do seminário, em seu livro “Eu encontrei Jesus”. Sabe lidar com o materialismo que só ele.
     A Igreja, ouço por aí, estaria agora a balançar dos sinos aos fundamentos. Como num terremoto, porém terremoto oriundo de suas trevas mais intrínsecas.
     Não é terremoto. É um curto-circuito por um mau contato entre o negativo interno e o positivo externo. A luz secular e iluminada não suportou tanto obscurantismo moral e tanta queda física.
     Resultado é um flash do panorama atual retroativo ao final da Segunda Guerra Mundial, mais ou menos. Pouco registrei os estonteantes números de maus-tratos e abusos entre as muralhas católicas norte-americanas e irlandesas e belgas. Nada sei sobre as analogias brasileiras. Os fatos na Alemanha, contudo, os registrei com certa regularidade, e não há como não estarrecer com o silêncio e sistêmico da podridão e frieza humana desvendada.
     O cerne da questão, contudo, não é a Igreja Católica. Seu caso é apenas o mais espantoso pela sua aura sobre-humana, entre semidivina e divina. Pela capacidade de falsidade que se abre entre a moral pregada aos domingos e os atos natos ao abrigo de portas cerradas a sete chaves em seis dias úteis. 
    O problema não é católico. Nem medieval - sabe-se lá o que faziam naqueles idos. Abuso sistemático aconteceu, entre outros, também no longo período de 1966 a 1991 em internato progressista alemão, onde estudava um filho do ex-presidente alemão von Weizsäcker.
     O problema verdadeiro e primitivo é, por definição a existência da própria sexualidade, pois pressupõe a interação entre indivíduos, problema inexistente entre os indivíduos assexuados dos seres naturais e assim não ensinado ao pobre ser humano. O problema segundo agrava o problema primeiro ao negar a força da sexualidade. Negar realidade só dá em confusão, pois toda hora batemos nela que nem criança a testa no canto das mesas de adultos. O terceiro consiste em o protagonista adulto não ter idéia do que está causando ao menor. O quarto é o menor de idade sequer ter ideia do que com ele está a acontecer, que, se porventura entende, só pudor sente; tanto vítima culpada sente-se que não consegue recorrer a terceiros, que às vezes sequer existem - ou então se enquadram nos negadores.
     O tabu da sexualidade (sadia, para ser mais preciso) em nossa cultura cristã é um problema. O tema, negado ao jovem em família e escola, é tratado na rua, em revistas, filmes, dicionários. Não raro, é praticado antes de conhecido. A Igreja Católica Apostólica Romana é a maior força que coloca o jovem neste beco.
     E no Brasil, então? Não sei. Por ser testemunho, só sei acrescentar um desses fatos: no Instituto Pré-Teológico de São Leopoldo (IPT, um seminário protestante), no dormitório e em excursões escoteiras, houve em 1966/67 abuso tríplice de alunos adultos num menor que sequer entrara na puberdade. Hoje adultos, alguns deles devem estar exercendo o santo ofício sem nunca ter pedido perdão à vítima objeto.
     Não é coisa católica. É coisa humana. E não exclusivamente masculina, se bem que predominantemente. Todos precisam de proteção, particularmente crianças e jovens, pois são os mais indefesos.

P.S. 14 de junho de 2010: entrementes li isso .

24 de abril de 2010

Animais

     É triste iniciar esta coluna assim, mas animais precisam de proteção.  Hoje, de carro a caminho do Moinho, percebi um pequeno cão à beira da rua.  Estava deitado. Vi sua língua de fora e, enfim, seu último terço de corpo estraçalhado. Estava morto. Atropelado.
     Foi um choque. Logo, contudo, surgiu-me a impressão de que alguém o teria enterrado à beira do asfalto. É raro ver isso. Comumente os cadáveres atropelados permanecem jogados no asfalto. 
     Que tenha uma boa vida eterna, o bichinho!
     Pior é a situação de um cão cujo dono o está acostumando a comer apenas a cada sétimo (convém repetir: 7º) dia para que cause menos despesa. Quem me contou foi uma criança. Criança que adora animais.
    Seria um presidente de bairro. Mencionou um bairro.
    A Associação dos Amigos dos Animais foi informada.
    Não escapará. Animais precisam de proteção.

21 de abril de 2010

Dicionário online alemão-português.

Entrevista com o fundador do dicionário TransDEPT www.transdept.de

Ulrich Dressel (UD): Jan Gossmann, você é o dono do dicionário http://www.transdept.de online para o par de idiomas alemão - português. Quando e por que nasceu esse dicionário? Que dicionário é esse?

Jan Goßmann do TransDEPT (JG):Tudo começou em janeiro de 2007 durante minha primeira visita ao Brasil. Procurava um dicionário para meu celular, mas não encontrava nada adequado. Para mim foi um desafio interessante desenvolver um programa próprio para um telefone sem fio. Assim mandei brasa. Confeccionei o vocabulário básico a partir de fontes públicas. Quando o programa ficou pronto em sua primeira versão, quis evidentemente dar acesso também a outros usuários: precisava de uma plataforma web que permitisse baixá-lo. Como não gostava de forma alguma dos dicionários online disponíveis na web, simplesmente iniciei meu próprio!

UD: Você é alemão? Tem colaborador lusófono?

JG: Sou! E sem minha nova esposa Gina, de Fortaleza, o projeto nunca teria sido possível. Acho que nem teria começado a estudar português...

UD: Quais são os desafios técnicos e de qualidade de um projeto deste gênero?

JG:Para além do desafio da anteriormente citada programação do celular, quis criar um dicionário que enfocasse unicamente traduções para o idioma português e alemão, respectivamente. Isso oferece grandes vantagens na tecnologia da programação mas também na qualidade do conteúdo do dicionário.

UD: Qual é a relação entre o português de Portugal e do Brasil em Transdept? Como ela é tratada?

JG:Há uma pequena preponderância do português brasileiro, uma vez que a maioria dos usuários colaboradores do projeto (como eu) provém de um contexto teuto-brasileiro. Ademais obtivemos particular apoio de páginas web desse meio, fortalecendo TransDEPT. PORÉM: estamos constantemente envolvendo páginas lusas de Portugal, ainda nos últimos meses tivemos sucesso nesse sentido. Nosso objetivo, sem dúvida, é a igualdade de ambas!

UD: Quantas traduções contêm transdept? Qual seu ritmo de crescimento?

JG: Atualmente temos uns 116 000 verbetes, mas diariamente aumenta o número graças a nossos colaboradores voluntários.

UD: Qual o mecanismo para enriquecer o dicionário? Quem colabora?

JG:Todo usuário que se inscreve (gratuitamente, claro) em TransDEPT pode incluir verbetes e mesmo alterá-los. Para assegurar a máxima qualidade do processo, essas inclusões não são postadas diretamente na web. No dito „Editor“ todos os demais usuários (também os não registrados) podem conferir e comentar as novas propostas, votando contra ou a favor. Sendo positivo o resultado, as alterações são finalmente transferidas para o dicionário.

JG: Quais são os objetivos do projeto? Aonde Transdept quer chegar?

UD:Já somos a referência primeira para traduções teuto-brasileiras na Internet. Neste sentido pretendemos ser melhores do que todos os demais dicionários online em termos quantitativos quanto qualitativos. Estamos indo bem!

UD: Como está Transdept entre outros dicionários para o par de línguas alemão e português. Existem outros? O que os distingue?

JG: Certamente os há. Nalguns pode-se até traduzir entre klingon e alemão (não é brincadeira!). Falando sério: é justamente neste campo que usamos da nossa vantagem: não queremos incorporar outros pares de línguas, por isso mesmo que podemos usar esse conceito bilíngue de menu que tanto nos agrada. Ele cria laços! Ademais, permite-nos trabalhar muito mais os detalhes teuto-portugueses do que aos convencionais dicionários multilíngues. Podemos ainda dar muito mais atenção a detalhes teuto-portugueses do que dicionários multilingües convencionais o fazem. Considere só nossa possibilidade de identificar automaticamente formas de verbos conjugados deduzindo deles o infinitivo. Isso é uma ajuda maravilhosa especialmente para iniciantes e uma função que desconheço de qualquer outro dicionário! Ademais, alguns dicionários online incorporam indiscriminadamente todos os novos verbetes de seus usuários – uma visível catástrofe para a qualidade! E, por fim: todo vocabulário de nosso dicionário online está simultaneamente disponível no TransDEPTmobil, o programa para o celular. Coisa legal poder traduzir algo rapidamente na estrada. Aliás, para tanto não se precisa de novo acesso. Funciona também sem sinal de cobertura, não havendo, portanto, custos de ligação! Eu, ao menos, sou mais rápido no celular do que num pesado dicionário, quando pesquiso termos. É exatamente essa nossa filosofia: TransDEPT sempre disponível!

UD: Enquanto alemão, qual a sua percepção do idioma português? É fácil para alemães?

JG: Bem, só posso falar por mim, sobre meu desempenho. Minha leitura do português funciona muito bem. Na escola aprendi inglês, francês e latim, de modo que a gente reconhece e conhece mesmo muitas palavras. Mais difícil, no entanto, fica a conjugação dos verbos numa conversa, de modo que às vezes gosto de recorrer aos tempos elementares. É a pressa, não há tempo para muito raciocínio!

UD: Prezado Jan Gossmann, agradecemos sua atenção.

JG: Foi um prazer!

Aprendendo inglês (humor)


"Se tu fosses meu marido, eu iria envenenar teu café!"
"Se tu fosses minha mulher, eu iria bebê-lo!"
Aprendendo que no bate-boca não existe última palavra. 
A última sempre será a penúltima.

Humor

Mãnhê, por que os homens precisam fazer exame de prótese?

19 de abril de 2010

Recaída no medieval em Ijuí


   
     Repentinamente, do último inverno para cá, Ijuí me passa uma nova sensação de vida. A sensação de uma vida sob ameaça. Não aquela ameaça de chumbo perdido ou bem acertado das ruas do Rio brasileiro, mas das picadas certeiras de mosquitos mil no tornozelo ou noutra veia à flor da pele.
    E, mal passado por essa moléstia tropical e subtropical, já me exigem a decisão sobre dispendiosa vacina contra a gripe suína. Em função do preço penso três vezes. Assegurada a vacina da filha, no entanto, decido pelo sim, sem considerar cifras. Na impensável hipótese em que estou pensando, a cifra seria perpétua para os sobreviventes (glup).
    Nunca em meus 15 anos de Ijuí e recentes 20 anos de Brasil a natureza ou parte dela, que não são onças senão vírus, assediou-me tanto que impregnou meu dia-a-dia e noite-a-noite. Cremes me protegem quando não esquecidos. Uma recaída seria pior, alertam sobre a dengue. Logo mais, no frio às portas, será o álcool-gel o protetor e bem-estar das farmácias.
   Em 1882, há uns 140 anos, o médico alemão Robert Koch descobrira microorganismos patogênicos. Desde então muito se fez para se escapar de tais moléstias. 140 anos depois, Ijuí vacilou e tomou.
   Voltemos à altura dos tempos.

16 de agosto de 2009

Tradução litarária



Gentileza de Dieter E. Zimmer
   Dieter E. Zimmer nasce em 24 de novembro de 1934 em Berlin. É escritor (20 livros na temática Psicologia, Biologia, Antropologia, Medicina, Lingüística, Comunicação Social e Biblioteconomia), tradutor (organizador das obras completas de Vladimir Nabokov) e jornalista. Formou-se em Ciências da Literatura e da Linguagem, em Berlin, Genebra e nos EUA. De 1959-1999, foi redator do renomado semanário alemão liberal Die Zeit, periódico iniciado em fevereiro de 1946, com hoje mais de 2,1 milhões de leitores. Zimmer obteve nove prêmios, dentre eles dois prêmios por traduções: o prêmio Helmut-M.-Braem, em 1996; o prêmio Fundação Heinrich-Maria-Ledig-Rowohlt, em 2008.
   Não pude deixar de primeiramente apresentar ao leitor brasileiro este grande jornalista alemão, ademais tradutor e escritor, de quem ando expondo um capítulo, por mim seqüenciado, que referencia especificamente o ofício da tradução. Ao perceber que das poucas linhas citadas jorravam parágrafos e páginas, não tive como não solicitar o consentimento do autor para dar continuidade a suas observações aparentemente intemporais.
    Responde Dieter Zimmer: „Uma vez que, a meu ver, meu livro ‘Redens Arten’ está fora do prelo, voltou a pertencer a mim – assim creio ‑, e portanto posso com todo prazer conceder-lhe a permissão para a publicação do capítulo Concurso dos tradutores em seu blog.”

Agradecemos ao Dr. phil. h.c. (Univ. Técnica de Dresden, 2003) Zimmer pela cortesia. Confira sua página web: http://www.d-e-zimmer.de/




Concurso de tradutores

A provisória indispensabilidade do human translator 

   Inícios de 1965, a Freie Akademie der Künste de Hamburg (Livre Academia das Artes) promoveu um congresso internacional de tradutores e, neste contexto, um concurso de tradutores em cooperação com o semanário Die Zeit. Devia ser traduzida uma prosa impressionista de Graham Green, ainda não disponível em idioma alemão: The Revenge. A participação foi grande: houve 620 remessas, todas anônimas. Como redator de um caderno da “Zeit”, fui parar no júri, decerto por ter tido oportunidade de ter alguma experiência como tradutor literário. Não dispunha de teoria da tradução, nem posteriormente a desenvolveria (na prática da tradução, tão pouco ajuda quanto a termodinâmica no preparo de um grelhado). Traduzira, contudo, autor exigente que passara a vida circulando entre duas línguas – Vladimir Nabokow. “Quando um tradutor começa a traduzir o ‘espírito’ em lugar do mero sentido de um texto, já começa a trair seu autor”, escrevera Nabokov; aliás, mandara simplesmente destruir uma tradução insatisfatória (sueca) de sua “Lolita”. Certamente não pretendera negar que uma obra compreende também algo como um “espírito”; quis apenas acautelar-se contra tradutores que grosseiramente ultrajavam o sentido literal em nome de um “espírito” vago e, certamente, nunca apreensível. Em resumo: certa precisão parecia-me muito desejável; a aspiração da precisão, porém, veio acompanhada da compreensão de que uma tradução pode ser precisa em diversos patamares, e que a precisão num deles pode ser a imprecisão noutro. Pode, por exemplo, tentar imitar a sonoridade do original, sua ressonância, aliteração – desconfigurando e desviando os sentidos das frases. Ou pode reproduzir com grande equivalência as estruturas frásicas, alcançando justamente desta maneira um grau de fluidez ou dificuldade não próprio ao original, tornando-se, assim, imprecisa. A boa tradução, assim me parecia, só pode ser um meio-termo que trate de ao menos diminuir as imprecisões dos diversos patamares. Agrega-se a isso que até palavras sinônimas de dois idiomas não costumam ser total e verdadeiramente equivalentes; e que mesmo as frases mais simples podem geralmente ser traduzidas nas mais diversas formas, bem como as preposições por trás, que ainda no idioma fonte poderiam ter sido expressas de diversas maneiras. Tudo isso havia me convencido de que qualquer tradução pode apenas ser aproximativa, infelizmente – e que seu crítico deve, portanto, dar um (certo) desconto: não pode aquilo que ele mesmo prefere considerar a tradução “correta” sobremodo ser o padrão das coisas.” 
   Essa venialidade já não resistiu depois da leitura de 620 traduções de um mesmo texto. (...) 
   Para um texto como o em questão – prosa moderna de uma cultura familiar, que pretende e deve antes ser lido pela narrativa e não por específicos interesses lingüistas ou outros ‑, para tal texto, afinal o caso mais comum, espero do tradutor que ele reproduza primeiramente o sentido terminológico com a maior precisão possível; e, por segundo, que mantenha o quanto possível (o máximo) daquilo que prefiro denominar de aura de um texto: cadência, ritmo, patamar estilístico, associações despertadas, carga histórica de sua linguagem. Creio ser essa a tarefa.
   A peça impressionista de Graham Green não é lá muito difícil. A desvantagem: a tradutores realmente bons oferecia poucas possibilidades de comprovar suas habilidades. A vantagem: não haver condições extremas senão as do cotidiano tradutório.
   Não obstante, veremos que também “A vingança” teve os seus busílis. Não é nada fácil imitar no alemão o parlando da lacônica dicção greeniana, aparentemente leve, relaxada, porém nuançada; a caminho de nosso idioma, tudo isso prontamente adquire o peso de uma esponja encharcada. Ademais, havia armadilhas. Aquela em que a maioria caiu consistiu em seis palavrinhas, um diálogo: He went into Cables and died. Cables, em maiúscula: não consta em dicionários. Significava: Ele foi à Cable & Wireless (hoje companhia para o trânsito internacional de telefonia e telégrafos do correio britânico), e morreu.
   Admitido, (;) ninguém precisa saber isso. Só que faz parte do serviço comum do tradutor, resolver questões que na verdade não se sabe nem se pode saber. Ou a gente sabe suprir a lacuna no conhecimento; ou a gente encontra um jeito elegante de se sair dessa. Quem, portanto, traduz: Ele foi à loja de cabos e faleceu, não está de todo certo, mas ao menos percebeu que Cables deve ser alguma firma, de modo que sua solução se enquadra sem percalços no contexto.  
   Agora, as contorções de quem não sabe encontrar saída: foi parar entre cordames; foi parar numa confusão de cordames, e neles morreu; chegou aos cordeiros; foi a Cables (lugar a ser ainda fundado, noutros casos simplesmente chamado C., por má consciência); tombou na invasão de Cables. Outros lhe atribuem uma convulsão tropical ou o mandam para um campo minado. Enigmático soa: Foi para o Cables (cinema ou zona?) E assim vai indo, até as pitorescas soluções forçadas: Teve azar e se foi; foi pro outro lado: corrente de alta tensão; lutou contra os cabilas; foi a Cabul; foi a Cabale, sociedade secreta difundida particularmente na Malásia; ocupava-se com contos à la Cable; disse “poh” e se finou. Este é apenas um pequeno recorte.   
   Bem, creio que já transparece meu objetivo: esse concurso revela uma quadro um tanto desconsolador das habilidades tradutórias que dormitam neste nosso país. Qual a razão? O fato de qualquer um poder participar, integrando-se muitos diletantes e calouros? Talvez. Só que, temo, não foi isso que diminui a aflição com o resultado. Pois poderemos primeiramente supor que um conto, e fácil, encaminhado a um concurso, terá sido trabalhado com maior primor do que um livro grosso traduzido sob a pressão do tempo; que, portanto, noutros casos a (inevitável) displicência resolve o que aqui causa o diletantismo; e, por segundo, há mesmo editoras que ajudam para a impressão ainda aos mais displicentes.  


1. Pedantismo
   Toda tradução é interpretação. Pretende reproduzir o que o tradutor entendeu de um texto, o que pode ser mais, pode ser menos, pode ser algo bem distinto daquilo que o autor quis expressar. Ademais, uma frase dificilmente pode ser tão simples que não haja possibilidade de traduzi-la de diversas maneiras. O tradutor compara-se a um instrumentista: como este, deve dar novo formato a um objeto concebido por outrem, de certa forma existente apenas virtualmente para ele. É tolo condenar a “tradução interpretativa”, como constantemente ocorre. A tradução não pode senão ser interpretação. A questão é apenas se o tradutor interpretou certo – ou ao menos se movimenta num quadro plausível.
   Algo bem distinto é, contudo, a tradução pedante. O translateur que sempre sabe tudo melhor do que o autor, em toda frase obstinadamente empenhado a se produzir, a quem não basta traduzir The Revenge com A revanche, firmando em vez disso A revanche de um homem ou Revanche petrificada – causa devastações quase maiores do que o simples ignorante (que, aliás, não deixa de ser).
   Em momento determinante, Greene compara o desejo da vingança em seu conto com um ser, um animal sob uma pedra: a creature under a stone. Animal, ser – algo insuficiente aos pedantes. Seus unidos esforços geram verdadeiro zoológico. Sua pedra cobre vermes, vérmina, rãs, besouros, cobras, víboras, cobras-cegas, sáurios, lagartos, répteis, gusanos, seres animais, pragas, bicharedo, bestas, demônios e monstros; aparecem besouros pestanejantes, bichos-de-conta à procura da luz, insetos vingativos; sequer falta um porquinho-da-índia confinado em escura caixa metálica, alimentado com seixo.
    Os mais afoitos pedantes não têm pudor em enlaçar verdadeiras frases de produção própria. O leitor atento costuma percebê-las por sua tolice.


2. Censura
    Variante do pedantismo é o costume de censurar moralmente o autor traduzido. A história de Greene pouco motivo ofereceu para tanto; não houve trechos ou vocábulos ofensivos que pudessem convidar a cortes ou amenizações. Não obstante: quem transpassar uma frase como pouco me interessava o clímax da história para o sentido de valores morais eu então ainda tivera pouca compreensão já atua como censor moral. O tradutor deve saber negar suas próprias opiniões.  

3. Pressa
    Traduções, diz-se, são sempre mais compridas. Deve ser verdade – de outro lado, sempre se perde algo no caminho. Palavras, orações, frases, parágrafos desaparecem sem deixar vestígios: perdem-se num dos processos de cópia. Pressa transforma o Pacífico em Atlântico, uma história moralista numa muito imoral.


4. Ignorância do contexto
    A mais empenhada revista de dicionários não dispensa o tradutor da necessidade de acompanhar o raciocínio. Precisa perceber que na história de Green o menino tantas vezes leu o romance “Foe-Farrell” por ter cogitado revanche, e não o contrário. Aliás, Fritz Güttinger fala algo sobre a prática da tradução literária, “Zielsprache” [Língua-Alvo], em seu interessante livro.

5. Frase salada russa

    Nem sempre será possível manter exatamente as unidades fraseológicas da língua original. No alemão, a frase fica facilmente confusa em função de o verbo freqüentemente ficar no final da frase, e em função do difícil emprego das tão cômodas orações participiais. Num caso desses, é melhor uma cisão determinada do que uma irreparável confusão lingüística, que afinal não houve no original. Devem, porém, ser temidos tradutores que cortam quaisquer longos períodos, fazendo de todo ligado um staccato canino.


6. Ênfase podre
   Há tradutores que não conseguem traduzir to read a book como ler um livro. Eles mandam devorar um cartapácio. Cada muito vira um demasiado, ignoram vingança quando não gélida, impiedosa, sem compaixão. Generosamente espraiam pontos de exclamação texto afora. Por vezes, dois ou três seguidos. Afinal poderíamos ter ficado surdo com sua gritaria.


7. Teutonização
    Como é sabido, a língua alemã tem uma tendência para a formação de substantivos brutos, pesados, (palavras-centauro, conforme Martin Walser), tendo alguns deles um ar de populismo nazista. Deveríamos poupar delas o autor estrangeiro. Quando Green diz loyalty, não se refere a devoção ou responsabilidade culposa, e o conflict of loyalty não é luta de credo. Qualquer baixio que consistiria nalgo como arisca admiração é rumorejo totalmente alheio a Green. Sem falar da estúpida falta de instinto em traduzir clímax como solução final.


8. Estereótipos lingüísticos
     Quem adquire seu vernáculo particularmente de historietas de amor, de preferência não deveria partir para a tradução. Quando o dito cujo escutar a palavra vingança, logo associará a com brasa que, por sua vez, arde. Onde dizia sinto uma necessidade de vingança, escreve ardia-me a brasa da vingança (com o resultado de que, na seqüência, o animal debaixo da pedra se transformará em cinza quente, em que ficam remexendo).

9. Falta de fantasia lingüística
    O tradutor deve saber apreciar dicionários, e ao mesmo tempo saber se lhes impor. Quem neles se amparar em demasia, redigirá algum esperanto, mas nenhum vernáculo. E o que mesmo fará quando o dicionário lhe falhar, afinal algo costumeiro?
  Ao final da história aparece, então, a palavra anti-clímax; como anti-clímax, decepcionantemente diferente do esperado ápice, revela-se o último encontro dos velhos colegas de escola, e a palavra alude ao mesmo tempo ao desejo da vingança dramática, (clímax) da literatura juvenil. O tradutor não teria, pois, que fornecer apenas uma correspondência alemã para o anticlímax, teria ainda que esclarecer essas relações. A palavra anti-clímax não corresponde a nenhuma dessas finalidades, sendo, ademais, uma falsidade – tal qual o anticlímax. Neste caso só serve um rodeio, o que exige a habilidade do uso um tanto flexível da língua. Facilmente acontece o tradutor tomar liberdades desnecessárias: senti-me como um balão que perdeu seu gás. Ou é demasiado tímido, gerando palavras malogradas tal qual anti-agravamento ou não-ápice. Fantasia lingüística: isso significa saber testar possibilidades, saber balancear nuanças, arriscar desvios, se bem que comedidamente e nenhum passo além.


10. Discurso direto
      Não é fácil acertar o tom exato de um diálogo De um lado, corremos o risco da artificialidade (ei, você não nos ajudara sempre na preparação ao latim?); do outro lado, de uma caricatura da gíria (rapaz, na escola sempre dava um durão no latim!). Mesmo bons tradutores chegam a fracassar do discurso direto. Desafio bem mais difícil para o tradutor ocorre apenas ao lidar com a tradução de dialetos, slang, argots e quejandos!


11. Imagens distorcidas
       Comicidade involuntária produz com maior facilidade aquele tradutor a quem falta o faro das imagens e comparações desmesuradas, que não percebe que o lado figurativo de uma comparação é aquele que deve determinar a formulação do que segue. Maliciosos apelidos, dizia na história, foram-lhe enfiados que nem espinhos sob as unhas. Aqui não funciona nem apelidos acertavam-no que nem espinhos (que afinal não são projéteis) nem foram entremeados, implantados, envolvidos, enredados ou jogados. Resulta sempre em mera catacrese.



12. Barreiras de importação
      Em textos estrangeiros sempre aparecem coisas que não existem na Alemanha. O que fazer? Primeiramente, devem ser reconhecidos. The head of the house é o mais velho da casa, o prefeito de um internato inglês (representante da turma já seria demasiado alemão). Quem não percebe isso, enfia-se em abstrusos descaminhos. Pare ele, esse irmão mais velho vem a ser o chefe de família, dono da casa, espírito líder do lar, proprietário da casa, caseiro. E a seguinte variante permite conclusões sobre relações familiares incomuns: meu pai era chefe supremo; meu irmão mais velho, chefe de minha família. Até quem reconhece com certa precisão o certo  nem sempre o saberá expor. O cacique é aqui tão inconveniente quanto o policial, o diretor da divisão escolar, o chefe da casa escolar ou mesmo o chefe de grupo e o líder de grupo.



13. Imposição de vícios lingüísticos
      Ao estranho autor gentilmente não se deveria impor os próprios vícios lingüísticos. Se para a gente tudo tiver um tchã ou graça, e se não simplesmente ocorrer, mas ocorrer um tanto peculiarmente, o autor traduzido, não obstante, merece misericórdia.

21 de junho de 2009

Divagações de tradutor


Férias! Último dia! Deixemos assuntos cabeludos para a próxima semana. Fiquemos com a leveza do ser tradutor! Leveza que paira. Por definição. Coisa de segundo grau, de física e gravidade. Hoje, de ensino médio e de gravidez.
Cabeças humanas divagam. Fazem-no desde que são humanas. (Não: desde que humanas. Pessoalmente, creio que o fizeram antes.) Quando literário o tradutor, ou das ciências sociais, o ofício reforça o vagar. Afinal, faz diferença descrever parafusos ou feições e corações.
Com que não nos alimentam nossos autores: paisagens naturais, paisagens humanas, perfiladas ou apenas faciais. A observação de uma flor e seu beijador. O mirar e pensar do cão amigão. As relações humanas e desumanas. Sons e odores, sentimentos e rumores. me envolvi com terrorismo e comunismo; lençóis freáticos, meio ambiente; solidariedade e educação. Tutti fruti. Como não acompanhar, pensar, sonhar, aprender e crer.
Meu atual autor me ocupa com a questão e gestão da ética. Reconheço na ética a palavra das palavras. Acima de amor e mandamentos. O pico da montanha dos conceitos. Houvesse ética generalizada, não bastaria? Não seria melhor do que o amor ao próximo, mandamento predileto da infiel? Ou o amor generalizado, não necessariamente ético?
Bem, é o campo dos filósofos. Limitemos as divagações:
São certas orações, certas abordagens que me vêm à mente nesta ocupação oficiosa com a ética. ouvi gente rezando por minha sorte financeira! Fico feliz em deus ter a grandeza suficiente de indeferir. Imagine a inflação zimbabuana que daria se atendesse? Bilionário, mais pobre seria do que o agora milenário.
Intrigam-me também os dois goleiros que, prestes ao início do chutebol, ajoelhados, em gestos cruzados, religiosamente imploram seus deuses, em geral idênticos, encomendando a sorte para si, o azar para o semelhante. Definitivamente! Não têm misericórdia para com seus deuses.
O humano desejo daquela hora pode ser muito delicado, evidentemente, para não constranger. Algo como “dai-me minhas forças”! Afinal, é preciso ser ético.
Também com deus.

Toque mágico

Tenho alguns vocábulos que nunca encontro. Palavras corriqueiras e poucas, sempre as mesmas, porém.

Não pode! pensa o leitor. Pode, sim, responde meu célebro, como diz minha filhinha e dizia eu infante. Algum cluster deve estar danificado, e o sistema não consegue reparar o dano. Ou a palavra não foi salva direito, logo de início, sem eu perceber. Deixa ver: são as palavras... as palavras .... Não em jeito! Também! Com o cluster “quebrado”!

Chatice! Fosse ao menos pro inglês, onde tenho recursos digitais. Mas alemão <> português. Nada! Que preguiça de procurar o gordinho em papel! Folhar e folhear e foliar ‑ que nem outono boreal. Deve haver outro jeito!

Descanso o queixo na palma, no punho, nalguns dedos dobrados. Fito a tela. Descubro o chiclete. O punho se abre, abre o chiclete, o chiclete faz a boca abrir. Calma, calma! Também esse exercício físico não abre a gaveta certa na estante certa no corredor certo no setor certo do departamento certo. Lá no alto. Lá dentro.

Tu sempre sabia! Tantas vezes encontraste. É a mesma palavrinha.... Será possível? Será?

Espiada de soslaio ‑ lá está o gordinho. Puxa! Porque não te abres sozinho e pulas na tela, como outros fazem, sabidinho? Tirar as mãos das teclas é como dar uma parada em carro a 80. Tu sabes. A gente para quando chega.

Deixa! Vamos dar mais meio minuto de chance para o andar de cima ‑ não é possível!

Nada. Nada feito!

Tá bem, não tenho mais tempo para perder! Ganhaste, Langenscheid. Mas não me prega a mesma peça de sempre! - Silêncio. Nem liga.

Lanço minha mão à sua direção. O toque. A iluminação! Está aí a palavra! Palavra que nem estava na ponta da língua. É brincadeira (do dicionário)!

Às vezes não basta o toque para o efeito, é verdade. É preciso folhar, encontrar alguma palavra que inicie com a respectiva letra ‑ e cá está essa palavrinha boa no esconde-esconde!

Um braço, uma mão, um toque em capa e papel – uma ponte, um curto-circuito, uma luz, uma solução (já conhecida)!

Hipóteses? Claro. Mas sobre fatos.

Ah! O toque teve seu efeito: são as palavras: sobrinho, ciúme - e mais algumas. Corriqueiras que só. Não disse?

Crônica agraciada com menção honrosa no XIII Concurso Literário da ALPAS

Olá Ana! Hallo Anna! Hi Ann!

Oi, onde estão vocês três? Que sincronia! Fosse somente uma a desaparecida, o assunto não caberia nesse blog. Agora, logo as três! Isso deve preocupar o tradutor hodierno. Digo moderno, porque o tradutor clássico não terá experimentado a tríplice ocultação.

Na verdade sou ainda um dos clássicos, se bem que não o último, por falta de idade. Quando vejo a lacuna, a preencho, como bem me ensinaram, já sem palmada, em tempos juscelinos e brizolistas!

Mas aí que está o problema. Aliás, um problema de obediente ex-secundarista. O que então esteve certo, hoje parece errado. A gente não o percebe quando falta apenas uma delas. Mas quando a Ana e a Anna, cruzando fronteires e oceanos, se tratam do mesmo jeito, e até a Ann cai no coro uníssono – então não podem estar todas erradas e eu certo!

É o que ando pensando. Sempre mais. Os textos que recebo me forçam a cogitá-lo. Os mails de todos os lados: de amigos e inimigos, de vírus, piratas e espiões. Nenhum deles quer saber de vocativos, que definham sem sua virgulazinha.

Não chego a nenhuma conclusão. Mudo o método. Paro de ler com os olhos e leio com a boca. E constato que elas têm razão. A fala não deixa o mínimo espaço para a vírgula. Realmente não cabe!

Nos tempos da formalidade, “Boa tarde, seu João!” era sinônimo de “Desejo-lhe uma boa tarde, seu João!” Hoje, “Olá Ana!” ainda significa “Dou-lhe um olá, Ana!”? Significa antes um ”Te percebi, Ana!”

Retornando ao ofício: se traduzo correspondência (e o faço), e ambos os lados escrevem na maneira moderna, já não sinto mais cacife para imprimir tempos idos a tempos modernos. As Anas me matam pelo cansaço. E é assim que as coisas evoluem e sempre evoluíram. Matando pelo cansaço. O que admira, é a simultaneidade nas três culturas, se não noutras mais.

Espiemos ainda, sobre o “alô”, o Houaiss, que está com um pé de cada lado do muro, onde vejo dois vocativos:
1 us. para chamar a atenção de outrem
Ex.: a. vocês aí embaixo
2 us. como saudação
Ex.: a., amigos radiouvintes

E eu toda manhã abrindo meus “Hallo Herr Dressel!” da nova geração de secretárias e de seus velhos seguidores! Fugir como? Acho que estamos liberando uma tecla para algum novo sinal. Talvez este: :)!

25 de maio de 2009

Gostoso transtorno

Será que acontece só comigo? Seja lá como for, fascina. E por isso comento. Bi, tri ou multilíngüe, a gente fica lendo muita língua cruzada.

Em tempos de internet é como que simultâneo. Pula-se de um artigo na Folha Online ao The New York Times, e ao Der Spiegel. E a coisa ainda pode se potencializar quando o pensamento vaga paralelamente em mais outros campos ocupacionais de nosso dia-a-dia. Aquilo de que qualquer psicólogo nos previne por maléfico a nosso bem-estar. Porém, seguindo analogia de filósofo não descartável nem longevo: existe por constatado.

Algumas vezes ocorre um descompasso estonteante: lá vão os luzeiros avançando ao compasso de anos-luz (300 mil km por segundo – imagine ler o jornal em facção de segundos!), ao passo que a audição interna, que sustenta a leitura muda, avança a 343 metros por segundo - bem, a referência vale para o meio ar a 20 °C. Como em nossa singular cabeça pouco ar há de ter, porém muitos neurônios aquecidos a 37 °C, deverá ocorrer alguma aceleração de fator a mim desconhecido, não obstante sem qualquer chance contra a célere concorrente, tão aspirada particularmente no século XVIII.

Meu transtorno, pelo visto e pelo que confirmo, não passa de facções ‑ se bem que delas muitas ‑ de segundos (uma facção seria, provavelmente, pouco até para a percepção do black-out, desse preto e branco do qual estou falando).

Quando acontece, acontece quando troco a marcha, por assim dizer. Quando altero da língua primeira, de uma leitura profunda, para uma segunda. Paro num inesperado ponto morto. Num curto-circuito, mágico instante que me desperta e faz estranhar. Quando as palavras lidas já não fazem sentido e soam enigmáticas: nasais em inglês, th’s no português. Instantes de desorientação nebulosa, sem perceptível lei da gravidade, que ao menos me daria uma base inicial, uma referência para um reposicionamento.

A audição íntima dá um basta e puxa os luzeiros de volta ao ponto de partida, para conferência, sincronização e câmbio, para re-interpretação.

Dopado sem droga. Eu acho legal. Pena que é ocasional e não provocável.

Crônica agraciada com menção honrosa no XIII Concurso Literário da ALPAS.

A Tecla

é uma vez mais aquela em que estamos batendo tanto. É que me ocorreu mais um baita argumento, prático e oral. Provém da minha remota experiência de professor de alemão para brasileiros, e veio-me à tona quando reli o texto O gigolô das palavras, lembrado em lista amiga.

Todos, em nosso ramo, conhecemos aqueles acanhados em falar línguas estrangeiras ou estranhas, como que de fogo. Que fazer com essas pessoas que preferem não aprender a errar?
Como elas investem$$ no aprendizado do primeiro (dificilmente segundo) idioma estrangeiro, efetivamente precisam falar, e falam. Mas falam murmurando para evitar que alguém detecte seus inevitáveis erros.

Nestes casos, recorri ao que ouvira de incerta professora de línguas, que me convenceu de cara: fale alto e claro, fale para que escutem seus erros, que todo mundo lhe entenderá. Se não escutarem seus erros, pouco ouvirão e nada entenderão. Esses erros são evidentemente gramaticais, sabemos.

E não é a pura verdade? Conhecemos tanta gente estrangeira que muito peca em nosso idioma, mas os entendemos perfeitamente, pois são pecados apenas gramaticais, generosos e preposicionais. Digo perfeitamente em relação àqueles numerosos compatriotas que em perfeito português não dizem coisa com coisa.

Outra vitória da clareza e lógica sobre nossa querida gramática, nem sempre clara e lógica!

20 de abril de 2009

O cheiro do livro

Livraria livraria tem seu cheiro todo especial. Tem porque todo livro tem seu cheiro de livro. Livro novo, velho, mofado, plastificado, esquecido, ilustrado. Claro que, quando livraria definha virando papelaria, o pobre resto dos livros fraqueja. E a livraria virtual, então.

Tenho em casa, entre o cheiro de meus livros, dois extremos: um de abrir as narinas até os pulmões, o outro, de guardar a sete chaves na queijeira.

O cheiro do primeiro exala há muitos anos do Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa. Mais precisamente de sua capa de couro. Triste verdade é que, após 26 anos de convivência, esta capa deu o que teve a dar. O odor está mais virtual que real.

Foi parar em minha estante também o Novo Dicionário Websters, distribuído em cadernos, como cortesia para o assinante de um jornal. Cada verbete procurado é uma ânsia de vômito. Que processo químico terão usado na produção? Teria sido a razão da cortesia da editora?

A bem da verdade – também este nauseoso sucumbe ao tempo. Felizmente.

19 de abril de 2009

Mantenha distância

adverte o caminhoneiro na sua traseira. Pois perante cada tradução deveria constar a mesma placa. Mantenha distância! A distância para o original em sua estrutura lingüística, que invariavelmente quer impregnar e efetivamente impregna nosso labor quando este não for rotina aperfeiçoada.

É o constante “nós dizemos” do Agenor Soares de Moura, com que ‑ pasmem ‑ confronta até os melhores escritores-tradutores brasileiros. Não é mirabolante? Seria desleixo do tradutor? Penso, muito mais, que as ocorrências revelam a genuína gravidade do perigo corrosivo da transformação dos idiomas. Também o tradutor tem uma só cabeça.

Em meio a boa tradução de um edital do British Council deparo-me com um “tem como objetivo encorajar o intercâmbio”, direto do inglês. Nós diríamos “incentivar” ou “fomentar”, também acepções do verbo “to encourage”. Falsa amizade! Mais: “A novidade este ano é o Charles Darwin Award”. Quanta preguiça para quem recebe pagamento por palavra! Deveriam descontar o prêmio de 7 centavos do “award”. E um desconto pelo mau ordenamento da frase. Mal cheira também: “As pesquisas podem ser em qualquer área de Ciências.” Aqui ocorre, no mínimo, pobreza de estilo. Outro desconto. Será que há tradutor que no final do mês não consegue saldar suas dívidas com o patrão após receber, como é uso em certas fazendas no seio do Brasil?

Os parcos exemplos já não se restringem ao âmbito relativamente simplório do vocabulário. Envolvem a estrutura da frase.

Com a experiência, eu mesmo comecei a adotar a técnica de não me deter muito nesses itens na primeira corrida, pois já numa primeira revisão consigo melhor me desprender do idioma “opositor”, o que facilita chegar intuitivamente às soluções não encontradas na febre da batalha original. Na revisão descubro as vírgulas de uma gramática não brasileira; orações e intercalações que soam mal enquanto não deslocadas ao agrado do ouvido.

O fator tempo é o melhor amigo do tradutor para este desembaraço dos idiomas. Separa (distancia) o texto concreto à nossa frente do emergente texto virtual em nosso fundo. Uma terceira e quarta revisão, com intervalos de dias ou semanas, são bálsamo para as inevitáveis infecções de nossas línguas, que nos acarretam dor de ouvido e que depois não queremos engolir. Verdadeiro caso de otorrinolaringologista.

Sinceramente!

Chiclete com banana

Pode haver título melhor para essa música, que prefiro na interpretação de Tânia Maria? Pode haver melhor música para esse título certeiro, samba com suingue, ou jazz com rebolado de samba?

Poesia, é claro, precisa ser certeira, senão não seria poesia. E essas três palavrinhas tão bem fundem a essência das duas culturas (musicais), a essência da música americana com a da brasileira. Colocam duas essências culturais em perfeita harmonia musical e poética. Não será exemplo único, como certamente ocorrerá a este ou aquele leitor calado. Mas é um exemplo perfeito.

Afinal, evitou-se o desgraçado “samba-jazz” ou “jazz-samba”. O grande poeta Gil providenciou sua própria e perfeita tradução. Chiclete, o símbolo maior daqueles que criaram o jazz e adoram comer uma banana exótica. Já a banana é o símbolo dos descamisados, que têm a seu alcance a preciosa banana e, modernamente, o pobre suplemento chewing gum. “Chiclete com banana” é uma "tradução", uma ponte perfeita. Quem masca chiclé é norte-americano. Afinal ninguém sabe que os astecas e os maias mascavam a goma original. Já o americano – que associação lhe suscitará, uma vez que sua banana provém da América Central? Imagina jazz com rumba ou merengue?

Como vemos, a tradução poética é perfeita - para nós brasileiros.

A técnica do papagaio

Quando a situação descontraída em circunstâncias de interpretação me permite, apresento o orador fulano tal, e depois a mim como seu papagaio, que tudo repete, mas à sua maneira.

Essa gracinha é menos gracinha do que parece. O profissional bem-sucedido tem a grande habilidade de interpretar parágrafos inteiros. Eu, por minha vez, nas poucas oportunidades anuais em que interpreto aulas ou palestras, interpreto oração por oração ou frases curtas. Algo entre consecutivo e simultâneo.

Afirmam que é conveniente ser bom orador para bem interpretar. Pois eu não sou bom orador nem mau orador. Simplesmente não sou orador. Não obstante, a minha técnica me permite interpretar determinadas falas. É uma técnica que surpreendente e felizmente compensa minha péssima memória de queijo suíço. Sinto minha forma de tradução como uma técnica que dispensa a memória, e por isso mesmo a figura do papagaio cola bem. A sensação é até mesmo de não estar pensando, de tão automaticamente que ocorre.

Interpretar uma fala clara e bem pensada não é lá complicado. Já falas desconexas, desestruturadas, o “pensar alto” calam o papagaio, que, boquiaberto, levanta as asas em desespero, recobrando seus sentidos apenas quando verdadeiramente interpreta.

27 de março de 2009

Um ar de sranan surinamês no Brasil

Ich hob die Mule mit de Relhe ins Potrer getockt, além do enunciador, entende só quem fala simultaneamente alemão e português brasileiro sulista – muitos qualificativos para um só ouvinte!

É a fala de grande parte do colono imigrante alemão no sul brasileiro e significa: toquei a mula no potreiro. Potreiro, por sua vez, é sinônimo sulista de piquete.

A estrutura da frase é perfeitamente alemã. Um alemão perceberá que alguém está lhe falando em sua língua, mas nada entenderá. De outro lado, o brasileiro menos ainda entenderá, apesar de seu interlocutor usar suas próprias palavras. Os três substantivos da frase e parte do verbo composto são palavras portuguesas ligeiramente adaptadas à gramática alemã.

É uma língua sem escrita. Não é exatamente uma pequena Babel. É antes a sonhada, porém malograda solução democrática que Babel insinua: falemos uma única língua, que nos entenderemos! Só que quem entre os babilônios seguiu esta lógica tão lógica apartou-se dos demais e ficou em condições iguais aos demais.

Este idioma alemão brasileiro consagrou-se recentemente como mais uma língua autônoma de nosso universo. Mas a escolarização é seu coveiro.

24 de março de 2009

Gramestilo

Por duas razões quero insistir na questão. Primeiramente, nós tradutores, literários e de prosa, constantemente temos que desmantelar e destroçar torneios paragráficos para reconstruí-los na forma natural de outro idioma. De preferência, esquecendo por completo a estrutura original, que nos vicia o resultado. Para tanto, nem de longe basta dar conta de palavras e sinônimos. Requer-se torneio e estrutura. A segunda razão é que toda hora minhas fontes não literárias me demandam a reconstrução. Muitas vezes, este processo de reordenamento me custa mais tempo do que a procura de algum sinônimo estrangeiro. Vejamos 2 exemplos típicos da prática, ou seja, da realidade:

a) ... eu estava escultando uma linda musica que mesmo sem agente ter mantido contado eu já escolhe essa linda musica para nos a letra é muito forte ela é assim: direpente quando menos se espera, (...) mas você vai se acustuma no final. deixe acontecer e você vai ver vale apena tenta.

b) ... Assim, considerando-se que como boa parte dos conteúdos trabalhados pela disciplina de história possibilitam uma grande aplicação prática, seria válida a contribuição através do desenvolvimento do presente estudo tendo como objetivo principal a apresentação de metodologias de trabalho utilizando-se saídas de campo como técnica de construção do conhecimento.

O primeiro exemplo é impactante, carece de gramática básica, o que é raro nesta dimensão. Mas não custa a nós tradutores consertar tudo sem grande perda de tempo. Já o pequeno segundo exemplo, academicista, me causa um atraso de talvez 15 minutos em função de seu estilo. Particularmente seus gerúndios nos transformam em arqueólogos à procura das origens e referências desses gerúndios.

Perdi o norte? Não. Soube de fonte fiável que há até escritor que não sabe escrever. Essa afirmação implica que o cara tem sucesso, senão não seria “escritor”. É, portanto, o revisor editorial que faz desse escritor um escritor. Difícil de digerir essa verdade, seguro. Mas em nada muda não acreditar. Para abrandar: deve ser coisa exclusivamente de escritor moderno.

Pois bem. Aonde eu queria chegar? A On writing well, de William Zinsser. Li outros livros do gênero, em alemão e português. Mas o português é o pior, é detalhista, técnico. O inglês é o melhor. Parte da lógica, do bom senso. É o que me dá pé: simplesmente pense no que está escrevendo. Seja simples, extinga chavões. Use palavras curtas em lugar de longas. Seja preciso. Corte. Ao cortar, se torna preciso. Ao cortar, recorre à gramática para encontrar soluções melhores, mais elegantes. Ao cortar, aguça seu sentido pelo bom estilo. É só. É a questão. E se quiser se aperfeiçoar nessa técnica, comece a mergulhar em detalhes gramaticais e de estilística. Não obstante, é gramestilo: pouca gramática, e muito estilo.