20 de abril de 2009

O cheiro do livro

Livraria livraria tem seu cheiro todo especial. Tem porque todo livro tem seu cheiro de livro. Livro novo, velho, mofado, plastificado, esquecido, ilustrado. Claro que, quando livraria definha virando papelaria, o pobre resto dos livros fraqueja. E a livraria virtual, então.

Tenho em casa, entre o cheiro de meus livros, dois extremos: um de abrir as narinas até os pulmões, o outro, de guardar a sete chaves na queijeira.

O cheiro do primeiro exala há muitos anos do Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa. Mais precisamente de sua capa de couro. Triste verdade é que, após 26 anos de convivência, esta capa deu o que teve a dar. O odor está mais virtual que real.

Foi parar em minha estante também o Novo Dicionário Websters, distribuído em cadernos, como cortesia para o assinante de um jornal. Cada verbete procurado é uma ânsia de vômito. Que processo químico terão usado na produção? Teria sido a razão da cortesia da editora?

A bem da verdade – também este nauseoso sucumbe ao tempo. Felizmente.

19 de abril de 2009

Mantenha distância

adverte o caminhoneiro na sua traseira. Pois perante cada tradução deveria constar a mesma placa. Mantenha distância! A distância para o original em sua estrutura lingüística, que invariavelmente quer impregnar e efetivamente impregna nosso labor quando este não for rotina aperfeiçoada.

É o constante “nós dizemos” do Agenor Soares de Moura, com que ‑ pasmem ‑ confronta até os melhores escritores-tradutores brasileiros. Não é mirabolante? Seria desleixo do tradutor? Penso, muito mais, que as ocorrências revelam a genuína gravidade do perigo corrosivo da transformação dos idiomas. Também o tradutor tem uma só cabeça.

Em meio a boa tradução de um edital do British Council deparo-me com um “tem como objetivo encorajar o intercâmbio”, direto do inglês. Nós diríamos “incentivar” ou “fomentar”, também acepções do verbo “to encourage”. Falsa amizade! Mais: “A novidade este ano é o Charles Darwin Award”. Quanta preguiça para quem recebe pagamento por palavra! Deveriam descontar o prêmio de 7 centavos do “award”. E um desconto pelo mau ordenamento da frase. Mal cheira também: “As pesquisas podem ser em qualquer área de Ciências.” Aqui ocorre, no mínimo, pobreza de estilo. Outro desconto. Será que há tradutor que no final do mês não consegue saldar suas dívidas com o patrão após receber, como é uso em certas fazendas no seio do Brasil?

Os parcos exemplos já não se restringem ao âmbito relativamente simplório do vocabulário. Envolvem a estrutura da frase.

Com a experiência, eu mesmo comecei a adotar a técnica de não me deter muito nesses itens na primeira corrida, pois já numa primeira revisão consigo melhor me desprender do idioma “opositor”, o que facilita chegar intuitivamente às soluções não encontradas na febre da batalha original. Na revisão descubro as vírgulas de uma gramática não brasileira; orações e intercalações que soam mal enquanto não deslocadas ao agrado do ouvido.

O fator tempo é o melhor amigo do tradutor para este desembaraço dos idiomas. Separa (distancia) o texto concreto à nossa frente do emergente texto virtual em nosso fundo. Uma terceira e quarta revisão, com intervalos de dias ou semanas, são bálsamo para as inevitáveis infecções de nossas línguas, que nos acarretam dor de ouvido e que depois não queremos engolir. Verdadeiro caso de otorrinolaringologista.

Sinceramente!

Chiclete com banana

Pode haver título melhor para essa música, que prefiro na interpretação de Tânia Maria? Pode haver melhor música para esse título certeiro, samba com suingue, ou jazz com rebolado de samba?

Poesia, é claro, precisa ser certeira, senão não seria poesia. E essas três palavrinhas tão bem fundem a essência das duas culturas (musicais), a essência da música americana com a da brasileira. Colocam duas essências culturais em perfeita harmonia musical e poética. Não será exemplo único, como certamente ocorrerá a este ou aquele leitor calado. Mas é um exemplo perfeito.

Afinal, evitou-se o desgraçado “samba-jazz” ou “jazz-samba”. O grande poeta Gil providenciou sua própria e perfeita tradução. Chiclete, o símbolo maior daqueles que criaram o jazz e adoram comer uma banana exótica. Já a banana é o símbolo dos descamisados, que têm a seu alcance a preciosa banana e, modernamente, o pobre suplemento chewing gum. “Chiclete com banana” é uma "tradução", uma ponte perfeita. Quem masca chiclé é norte-americano. Afinal ninguém sabe que os astecas e os maias mascavam a goma original. Já o americano – que associação lhe suscitará, uma vez que sua banana provém da América Central? Imagina jazz com rumba ou merengue?

Como vemos, a tradução poética é perfeita - para nós brasileiros.

A técnica do papagaio

Quando a situação descontraída em circunstâncias de interpretação me permite, apresento o orador fulano tal, e depois a mim como seu papagaio, que tudo repete, mas à sua maneira.

Essa gracinha é menos gracinha do que parece. O profissional bem-sucedido tem a grande habilidade de interpretar parágrafos inteiros. Eu, por minha vez, nas poucas oportunidades anuais em que interpreto aulas ou palestras, interpreto oração por oração ou frases curtas. Algo entre consecutivo e simultâneo.

Afirmam que é conveniente ser bom orador para bem interpretar. Pois eu não sou bom orador nem mau orador. Simplesmente não sou orador. Não obstante, a minha técnica me permite interpretar determinadas falas. É uma técnica que surpreendente e felizmente compensa minha péssima memória de queijo suíço. Sinto minha forma de tradução como uma técnica que dispensa a memória, e por isso mesmo a figura do papagaio cola bem. A sensação é até mesmo de não estar pensando, de tão automaticamente que ocorre.

Interpretar uma fala clara e bem pensada não é lá complicado. Já falas desconexas, desestruturadas, o “pensar alto” calam o papagaio, que, boquiaberto, levanta as asas em desespero, recobrando seus sentidos apenas quando verdadeiramente interpreta.

27 de março de 2009

Um ar de sranan surinamês no Brasil

Ich hob die Mule mit de Relhe ins Potrer getockt, além do enunciador, entende só quem fala simultaneamente alemão e português brasileiro sulista – muitos qualificativos para um só ouvinte!

É a fala de grande parte do colono imigrante alemão no sul brasileiro e significa: toquei a mula no potreiro. Potreiro, por sua vez, é sinônimo sulista de piquete.

A estrutura da frase é perfeitamente alemã. Um alemão perceberá que alguém está lhe falando em sua língua, mas nada entenderá. De outro lado, o brasileiro menos ainda entenderá, apesar de seu interlocutor usar suas próprias palavras. Os três substantivos da frase e parte do verbo composto são palavras portuguesas ligeiramente adaptadas à gramática alemã.

É uma língua sem escrita. Não é exatamente uma pequena Babel. É antes a sonhada, porém malograda solução democrática que Babel insinua: falemos uma única língua, que nos entenderemos! Só que quem entre os babilônios seguiu esta lógica tão lógica apartou-se dos demais e ficou em condições iguais aos demais.

Este idioma alemão brasileiro consagrou-se recentemente como mais uma língua autônoma de nosso universo. Mas a escolarização é seu coveiro.

24 de março de 2009

Gramestilo

Por duas razões quero insistir na questão. Primeiramente, nós tradutores, literários e de prosa, constantemente temos que desmantelar e destroçar torneios paragráficos para reconstruí-los na forma natural de outro idioma. De preferência, esquecendo por completo a estrutura original, que nos vicia o resultado. Para tanto, nem de longe basta dar conta de palavras e sinônimos. Requer-se torneio e estrutura. A segunda razão é que toda hora minhas fontes não literárias me demandam a reconstrução. Muitas vezes, este processo de reordenamento me custa mais tempo do que a procura de algum sinônimo estrangeiro. Vejamos 2 exemplos típicos da prática, ou seja, da realidade:

a) ... eu estava escultando uma linda musica que mesmo sem agente ter mantido contado eu já escolhe essa linda musica para nos a letra é muito forte ela é assim: direpente quando menos se espera, (...) mas você vai se acustuma no final. deixe acontecer e você vai ver vale apena tenta.

b) ... Assim, considerando-se que como boa parte dos conteúdos trabalhados pela disciplina de história possibilitam uma grande aplicação prática, seria válida a contribuição através do desenvolvimento do presente estudo tendo como objetivo principal a apresentação de metodologias de trabalho utilizando-se saídas de campo como técnica de construção do conhecimento.

O primeiro exemplo é impactante, carece de gramática básica, o que é raro nesta dimensão. Mas não custa a nós tradutores consertar tudo sem grande perda de tempo. Já o pequeno segundo exemplo, academicista, me causa um atraso de talvez 15 minutos em função de seu estilo. Particularmente seus gerúndios nos transformam em arqueólogos à procura das origens e referências desses gerúndios.

Perdi o norte? Não. Soube de fonte fiável que há até escritor que não sabe escrever. Essa afirmação implica que o cara tem sucesso, senão não seria “escritor”. É, portanto, o revisor editorial que faz desse escritor um escritor. Difícil de digerir essa verdade, seguro. Mas em nada muda não acreditar. Para abrandar: deve ser coisa exclusivamente de escritor moderno.

Pois bem. Aonde eu queria chegar? A On writing well, de William Zinsser. Li outros livros do gênero, em alemão e português. Mas o português é o pior, é detalhista, técnico. O inglês é o melhor. Parte da lógica, do bom senso. É o que me dá pé: simplesmente pense no que está escrevendo. Seja simples, extinga chavões. Use palavras curtas em lugar de longas. Seja preciso. Corte. Ao cortar, se torna preciso. Ao cortar, recorre à gramática para encontrar soluções melhores, mais elegantes. Ao cortar, aguça seu sentido pelo bom estilo. É só. É a questão. E se quiser se aperfeiçoar nessa técnica, comece a mergulhar em detalhes gramaticais e de estilística. Não obstante, é gramestilo: pouca gramática, e muito estilo.

Onde estão as letrinhas mais lindas?

Estava com outra carta na manga para esta sexta quando me encanto pela palavrinha-chave das letrinhas, que novamente me cai na vista como possível tema anotado. Encanto e decisão acontecem no mesmo instante. Um pouco de intuição faz bem à redação!

É um tema que sinto como poético, como poesia de amor, bem entendido. É mais emocional, dá mais rédeas.

Bem, basta de prelúdio amoroso. O que me inspirou para o tema é uma coincidência na dupla dicionário e filas nas bilheterias do SESC, concretamente. Aquelas filas de ingressos pré-encomendados e reservados no nome da gente.

Observo ano a ano que os organizadores lá dominam mais ou menos a divisão por dois para o alfabeto de 24 letrinhas, mas não dominam a divisão em partes iguais das filas de seus espectadores. Devem estar separando a-m de n-z. A primeira fila chega a ser 5 vezes maior que a “minha” fila. E isso se repete ano a ano. Acentua-se a desproporção porque deixam até todas as Marias brasileiras na primeira fila.

Outro enfoque: sempre observo nos dicionários brasileiros como aquela divisão tradicional que cai entre as letras m e n acentua artificialmente o desequilíbrio do dicionário. Minha velha enciclopédia alemã divide seus tomos em a-k e l-z para ter 2 volumes iguais.

A relação entre o volume de páginas entre a-m e n-z para dicionários padrão comportam-se assim nas 4 seguintes línguas: Dicionário Etimológico Nova Fronteira: 542:296 páginas (= 1,8); Larousse (francês) 227:133 páginas (= 1,7); Oxford Dictionary and Thesaurus: 987:801 páginas (1.3); Duden (alemão): 369:316 páginas (1.16).

Nesses números está a chave para minha preferência lingüística, a beleza do português brasileiro falado, apreciado também por outras nações.

Quais as letrinhas que provocam esse encanto pessoal e internacional? É a abundância dos as em vatapá e abacate e sua singular nasalização em amante, tamanduá e mamãe; são os bês em beberibe e bebê, tão superiores aos pês de papo e pipa. Os dês de dado e dendê, tão mais carinhosos que os tês de tato e tatu. Não posso cantar o efe, mas compensam o gê e logo mais o jota, as suaves jóias do português, alcançadas apenas pelo francês. O aga é mero ornamento. Abunda o i: Ijuí, Ivoti e Iraí; subversivo, multiplica-se até à custa alheia em pede e mede, atordoando ainda o dê : pedgi i medgi.

O que tem a oferecer a contraparte? Tem, digamos, o o em sua forma aberta ou quando convertido em u: pouco, louco; já o rr, quando carioca (um agá alemão e inglês), é uma jogada genial do português que sequer os franceses acompanham! O vê e o zê merecem menção, mas não são lá grande coisa! Ok., nosso pê merece certo destaque, pois dispensa o duro soprinho do irmão inglês e alemão. Curiosidade à parte: os colonianos encontraram seu jeito, Bonaparte ensinou, e gostam até hoje.

Bem. Como dizia, são coisas de amor e de preferências que não se discutem! Na fila do SESC fico meio sozinho; já nas minhas preferências não: o povo brasileiro nomeia 5 entre 6 de seus filhos com minhas letrinhas amadas!  

Crônica agraciada com menção honrosa no XIII Concurso Literário da ALPAS.

A difícil equação do “tradutor nativo”

Não serei o único “tradutor nativo” a reparar sua metamorfose de “nativo A” para um eventual “nativo B”, e a fazer suas continhas, suas equações, que são de menos, pois nunca chegam a cem. Para mim, o “A” coincide com alemão, e o “B” com brasileiro.

Para colocar de cara o cerne da coisa: no Brasil, posso me caracterizar como tradutor nativo para alemão. É o que acontece. Poderia eu, entretanto, na Alemanha denominar-me nativo brasileiro? Melhor: a partir de quando eu eventualmente poderia?

Façamos uma continha: os primeiros 13 anos de vida passaram-se no Brasil. Desses, 6 aninhos sem ouvir português, seguidos, porém, de marcantes 7 anos de escolaridade brasileira. Digo marcante porque, no mundo teuto, sinto eternamente as vitais lacunas da escolaridade perdida na Alemanha. As lendas, a geografia, as cantigas infantis e folclóricas, das quais aliás não acho graça (sic!). Neste sentido, a balança imaginária começava a tender para a natividade brasileira. Seguem 23 anos na Alemanha, sem grandes simpatias por ela, o que prejudica sua absorção. E outros 19 anos no Brasil. Anos atentos à língua, anos logo voltados à tradução.

De certa forma, a balança entre A e B passou do ponto de equilíbrio. Claramente pela estatística, mas também aparentemente, pelos indícios. Aritmética já não é. É mesmo sensação e observação. Sinto onde meu vocabulário evolui e onde definha. E esse processo não é linear. Depende do registro e do campo temático, por exemplo. Recentemente, o alemão sofreu reforma ortográfica um bocado impactante. Flagro-me com dúvidas antes inexistentes com relação a verbos compostos e às maiúsculas. Até com relação a preposições. É quando me sai um surdo “opa”, é quando percebo que o tempo correu, que estou a 12 mil km daquela língua, que ela chega pelos meus olhos, e não pelo ouvido. Que me sai pelos dedos e não pela boca. Língua morta, de certa forma. (Já outros conseguem ressuscitar línguas mortas há milhares de anos!)

É uma metamorfose muito interessante, e certamente todo tradutor a experimenta em sua própria particularidade de ser e de ela suceder. Com maior ou menor intensidade. Mais que aritmética, é alquimia. É onde falham gavetas burocráticas ou sindicais. É dirigível [quis usar conduzível, mas vetam-me os dicionários], porém não dominável.

18 de março de 2009

De Chuí a Chuy

é um passo. Fomos desprevenidos, de turismo, e assim chegamos. Depois de 500 km de terra plana, finalmente o extremo sul do Brasil. Queremos adentrar 20 km em terra uruguaia para ver um famoso forte. Cruzar fronteiras é sempre algo fascinante, ainda mais neste Brasil sem fronteiras.

Barra-nos um aduaneiro uruguaio. Quer a carta verde, que teríamos que providenciar no centro de Chuí. Seu colega parece estar em desacordo, mas é subordinado. Mercosul parcial.

Vamos à Barra do Chuí, onde o pessoal, incrédulo da brincadeira do alfandegário, indica-nos uma estrada opcional por sobre a ponte internacional sem qualquer controle. Fazemos nosso passeio, retornamos deslumbrados com a beleza da fortaleza San Miguel e do pampa.

No centro de Chuí, a grande surpresa. De repente nos encontramos em meio a um infinito turbilhão de pessoas em plena e ampla avenida de 4 pistas onde mandam o pedestre e o camelô. Sabe-se lá em que solo estamos. Difícil encontrar um brasileiro. Nas placas comerciais e na propaganda predomina o espanhol, o turista é antes uruguaio que brasileiro. Turista do hemisfério sul aparenta rumar para o norte. E o extremo sul brasileiro é o extremo norte uruguaio.

Meu Passat 78 clama por uma oficina. Em três oficinas atendem-me mecânicos uruguaios. A pizzaria na Barra está em mãos uruguaias, a que talvez se deva sua excelência. No hotel brasileiro, avisos exclusivamente em espanhol. Na praia, turistas uruguaios.

O que eu queria narrar mesmo é dos dois idiomas que ali se confundem. Uruguaios que, entre si, falam mais rápido que seus velhos carros andam. Não há como entender. Conosco falam um portunhol carregado de eternos surdos: preciço viachar amañâ. Cidade repleta de tradutores e intérpretes: cada qual é seu próprio tradutor passivo. Recomendo a beleza desses rincões também aos tradutores ativos!

22 de janeiro de 2009

O tradutor globalizado


é um chavão, porque tudo e todos estão globalizados. Comparemos brevemente o tradutor de 15 anos atrás com o de hoje.
Quando, em 1994, comecei a trabalhar na universidade, eu contava com um computador e uma intranet. Um precário sistema de mails começava a funcionar. Na biblioteca universitária havia um acervo bem inferior a cem mil exemplares de livros, dentre eles alguns poucos dicionários padrão. 14 anos depois, meu computador tem acesso a dezenas de idiomas do mundo e a zilhões de sites e documentos. E a dicionários online, alimentados pelo próprio usuário. ‑ E a biblioteca é a mesma, grosso modo. Ou até encolheu.
Em 1987, a União Européia se convenceu da conveniência do intercâmbio entre suas nações. Criou o programa Erasmus, pelo qual hoje muito mais de um milhão de estudantes universitários estagiam anualmente no estrangeiro. Entre eles, certamente os futuros tradutores. Também os EUA investem no intercâmbio de seus estudantes. Os estudantes asiáticos, particularmente os chineses, estão fortemente presentes nas universidades européias e americanas. Mesmo o Brasil, jovem de 508 anos, está despertando.
Nunca antes houve números tão expressivos de intercâmbio multicultural. Havia o fluxo à metrópole de cada era. Se, antes, bilingüismo e biculturalismo fora feliz constituinte de tradutores, estes são hoje provocados, intencionais, conscientes, mais realizáveis e fáceis. Ou seja, o que antes fora acaso, hoje é intencional, porém idêntico: conhecer a outra cultura para facultar a comunicação, o intercâmbio. Os Agenores mineiros, hinterlandeses e mirabolantes, são hoje espécie não rara, mas extinta.
O que significa isso na prática traducional? Que as coisas nos ficaram mais fáceis. Quer dizer: hoje um tradutor consegue resolver problemas, solucionar dúvidas que ontem não teria conseguido solucionar com o seu conhecimento atual. Ontem era preciso ser mais craque para resolver as questões que hoje se resolve sem ser gênio universal. Não apenas no conhecimento privativo acumulado. Também na capacidade da pesquisa bibliotecária. Procurar na internet é mais fácil do que procurar na biblioteca. Encontrar na internet é mais fácil do que encontrar uma biblioteca de qualidade, eventualmente a centenas de quilômetros.
Ou, numa afirmação bem pessoal: muitas vezes me pergunto como teria eu conseguido traduzir o que hoje traduzo. E a resposta é um silêncio global.

Sensação estranha


Adianto ao leitor desses 5 parágrafos que a sensação sobreviverá a minhas linhas.  Senão não seria estranhez, seria outra coisa, por explicado.  Gostaria de descobrir se essa estranheza é peculiar.

Pois estranho minha aversão a tantas traduções alemãs de ficção latino-americana.  Essa numerosa série de palavras brasileiras e espanholas que entremeiam o texto alemão: os Pedros, haciendas, candomblés, siestas, señoras e pampas que ressaltam, que não se me inserem, feito girafas em pampas ou emas em pradarias; que recusam sua integração no ideário alemão em que o tradutor introduz este teuto leitor que sou eu. A estranheza não vem do fato isolado.  Ela contrasta com a experiência de que a sensação não se me repete com a ficção de outros quatro cantos do globo: América do Norte, Rússia, Ásia.

A única pista que tenho para compreender o fenômeno é que essas palavras em vernáculo original teriam um significado mais próximo, íntimo, para mim - por eu ser também entendedor do português e espanhol - do que scout, Rocky Mountains, Anushka, darling, mammachi e mister, que igualmente não costumam ser traduzidos em ficção vertida para o alemão.

Não bastasse isso, estou fazendo outra experiência neste sentido: ando relendo, em português, o indiano "O deus das pequenas coisas", que em inglês me fascinou demais. Mas o fascínio não está se repetindo!  Evidente que isso poderia se explicar pela releitura [Ai!  Quisera poder voltar atrás no tempo para poder tranqüilamente usar o torneio clássico poder-se-ia explicá-lo, que me soa tão bem em meu ouvido teuto, e tão afetado no brasileiro!], uma vez que a tradução para o português me parece impecável.  Será que o fascínio veio mais da decifração do inglês?  Se foi, não explica tudo, pois sei que as inúmeras associações inesperadas da autora me encantaram a toda hora.

Pois está aí o enigma.  Será como um filme visto após a leitura de seu livro?  E, se for, como ficam os pampas e as siestas em meus livros alemães, que não abro ou logo fecho?



Crônica agraciada com menção honrosa no XIII Concurso Literário da ALPAS.

Livro tem perna


Também o antigo vinil as teve. O CD ainda deve tê-las. o emule e família não as têm, de geneticamente modificados que são.
Das pernas e penas sabe quem ama suas estantes tanto quanto a seus amigos, fazendo por isso a ponte entre seus dois amores. Sangria, ponte de mão única. Bem sabe-o aquele que mais ama a seus livros do que seus próprios amigos, ao estancar com doloroso veto a mesma hemorragia.
A cada livro lido causa-nos o amor à literaturafictícia ou não ‑ o ímpeto de passá-lo a amigos e conhecidos. Ainda que o cremoso folhado circule em círculo vicioso, recompensam-nos ao menos as dicas de outros livros, senão o próprio. Aliás: quanto menor o círculo amistoso, menos vicioso.
Como legítimos donos da encapada voz do autor, contudo, obedecemos a dois beligerantes deuses íntimos: o missioneiro e o cobiçoso. Tendemos a aleijar essa voz bibliográfica, a mantê-la em cadeira de rodas móvel, porém não automóvel. Queremos a missão controlada.
Como sempre, há os do contra. Aliei-me a eles, ao menos um pouquinho. Quando avalio que nem eu nem algum familiar pegará novamente em mãos certo livro no decênio, sigo exemplo de amigo meu: repasso o livro à biblioteca ou a amigos, que por sua vez o passarão adiante. Ou ao sebo, modalidade que a rede de sebos www.estantevirtual.com.br ultimamente oferece aos livros não aleijados até da província. Serviço que instiga a extravagância do missioneiro literário. Ao salvá-los de traças e baratas, salva os pobres livros da vida eterna e permite-lhes criar novos brotos em crânios eternamente desconhecidos. Em vez de presos em prateleiras, retornam à corrente literária!
Até tudo normal entre certa classe social. Mas quando o sujeito é bilíngüe, seus amigos e o livro não? Ah! pega-se o livro e se o traduz para os amigos e demais desconhecidos leitores! Tive a felicidade de encontrar uma editora para dois livros que quis disponibilizar ao público lusófono (A Década Vermelha e A Utopia do Expurgo, ambos de Gerd Koenen). Com a parcela de livros que me convinha como tradutor, pude presentear uma série de amigos e bibliotecas. Novas pontes construídas!
Não é raro apaixonar-me tanto pelo novo livro descoberto que verifico se existe em português. pesquisei pelo e-mail de um autor chinês, e lhe escrevi sem obter resposta. Apaixonei-me pela edição inglesa de O Deus das Pequenas Coisas, mas outro apaixonado se antecipara. Semana passada, apaixonei-me por Leonie Swann, Three Bags Full, que li em alemão. Dá vontade de sentar e verter e verter para que o livro crie ‑ asas.

Crônica agraciada com o 2º lugar no XIII Concurso Literário da ALPAS.

O acentuado olhar externo


     ‑Paiê, “peleleva acento?
     ‑Leva não, filha! – Estás indo para a terceira série, não é?
     ‑ Tô, pai, tu sabe!
     ‑Então vou te ensinar uma regrinha pequenininha, e tu vais ser a mais sabidinha da turma na acentuação. Consegues decorar 5 coisinhas de nada e umas 3 dicas?
     - Paiê, sei coisas muito mais difíceis. sei contar quase até mil!
     - Então, veja: imagina um português sem acentos. todas as palavras são tônicas em sua última sílaba. Todas, menos as 5 coisinhas que te comentei: as palavras que terminam em a, e, o, am e em. Estas têm sua tônica natural na penúltima sílaba. Por exemplo: baba, pele, avo, amam, porem. A regra vale até para o plural de todas essas palavras.
     - Então, filha: quando a gente quer que uma dessas palavras tenha sua tônica em outra sílaba que não a natural, é jogar o acento para . Podes fazer isso com os exemplos que te dei, e terás palavras novas. E, afinal, sabes a diferença entre um acento agudo e uma casinha, não é? Depois vamos ainda falar de ditongos e hiatos para arredondar a questão...
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     Vi essa regrinha num livro alemão de ensino da língua portuguesa. Revelou-se regra áurea, de fácil manuseio mesmo numa madrugada de pizzas e chopes. Aplica-se até às palavras monossilábicas: , , ti, , tu. Mais: tão válida é que os descabidos acentos do tipoidéia” e “vôo” caem com a reforma ortográfica pretendida, enquanto que “a regrinha” fica inabalada, pétrea. Por natureza, ela não abrange os artificiais e arbitrários acentos diferenciais. Aliás: no fundo a reforma ortográfica reconhece um pouquinho a “regrinha”.
     Nem na internet nem noutros lugares encontramos essa abordagem da acentuação gráfica do português. Algumas abordagens se aproximam. Na hora H, no entanto, sucumbem ao tradicionalismo das “regrasoficiais. Sucumbem às “oxítonas”, “paroxítonas” e ”proparoxítonas” -- grego para infantes e adultos não menos que otorrinolaringologista e endocrinologista, no guia telefônico sempre traduzidas para o português. E, como se não bastasse, agregam aindacasos especiais“, que a “regrinha” derruba numa cutucada de nada!
     Reza a introdução do Michaelis às “regras da acentuação gráfica”: “O português, assim como outras línguas neolatinas, apresenta acento gráfico.” Ora! E daí?! Nenhum desses descritores de regras tem a curiosidade pelo porquê do acento nem a satisfaz. dizem que têm. Não elucidam a óbvia, a perceptível tônica natural subjacente à flor do vernáculo. Logo mais afirma o Michaelis: “Além disso, você notou que a sílaba tônica nem sempre recebe acento gráfico. Portanto, todas as palavras com duas ou mais sílabas terão acento tônico, mas nem sempre terão acento gráfico.” O ignorante, ávido por sua alfabetização, espera a elucidação do fenômeno. Segue, qual nada, a descrição de um enorme caos sem explanação! E multiplica-se o caos em milhões de cabeças lusopensantes.
    Aliás, e bem entendido: o que nos apresentam comoregras de acentuação gráficanão as são. São a descrição de regras de acentuação gráfica. Descrição que plantou bananeira. Se estudarmos “as regraslivres do efeito moral da tradição, se racionalizarmos palavras e raciocínio, chegaremos à conclusão que mais lógico é descrever a regra como uma , com uma exceção fácil de memorizar:
      As palavras portuguesas terminadas em a, e, o, am e em têm sua tônica natural na penúltima sílaba. As demais, na última. Compreendidos os plurais de ambos os grupos. Sempre que a tônica se deslocar da tônica natural, incide acento gráfico. Exceção é o grupo de palavras terminadas em en, cujo plural segue a regra das terminações em ens (exemplo: garagens).*
     Pronto! Formulamos uma regra fácil de lembrar! (Aliás: as palavras alemãs de origem germânica, por exemplo, têm sua tônica na primeira sílaba, com exceção de algumas palavras com prefixos.)
     “Tônica natural”. Não sei se os gramáticos a detectaram e como a denominam ou denominariam. Mas ela existe. Por que chama o lusófono o Zéppelin (alemão) de Zeppelín, a Lúfthansa (alemão) de Luthánsa? Porque a tônica ali lhe é natural enquanto nenhum acento gráfico forçar pronúncia diferente.
     Mostram-nos os exemplos anteriores: o luso-falante, ainda que analfabeto, tem uma maneira de distribuir as tônicas nas palavras. É o que chamei de “natural”. Isto não é uma regra, é uma descrição; é um por via de regra. Pois, nas tantas palavras acentuadas, o luso-falante foge ao princípio ou regra por razões várias, uma delas a etimologia, certamente.
     Não questiono os gramáticos. Não dizem nada de errado. Questiono a didática: se de diversas maneiras pudermos descrever o fenômeno das tônicas no português, a maneira mais simples é a mais didática. É bem possível que os gramáticos não possam deixar sua nomenclatura nem seu modo de apresentação. Mas que deixem isso para seu entendimento interno.
     Quanto não subiriam as notas médias dos alunos e a qualidade da ortografia do povo brasileiro se aplicássemos a simples lógica da “regrinha”! Por que haveriam os alemães de usufruir dessa simples explanação à introdução ao idioma português e os luso-falantes não? Algum de nós daria a seus filhos uma explicação complexa e cabeludíssima se conhecesse uma simples ou simplória?
     Quanto não complicam o ofício, a nós tradutores, esses mal-aventurados acentos gráficos da escrita dos modernos tempos!
     A “regrinha” que qualquer criança de 8 anos para mais consegue entender merece o comando.
    
* São poucas palavras de origem grega, hebraica, alemã, inglesa, etc.: hífen, abdômen, âmen, cáften, dólmen, éden, gérmen, hímen, líquen, lúmpen, sêmen, etc. Estes plurais confundem-se hoje com os plurais das palavras de origem latina.

Crônica agraciada com menção honrosa no XIII Concurso Literário da ALPAS.